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Contraponto

Depois de falar do gigante Jon Lee Anderson e da “arte de sujar os sapatos”, meu texto hoje é sobre o que acontece com a notícia num ambiente de jornalismo sem apuração e sem checagem.

A pressa em dar a informação por primeiro pode levar a uma bela “barriga” (para quem não está familiarizado com o jargão jornalístico: um erro feio). Já dizia o fantasma de Joe Strombel no filme Scoop, do Woody Allen (“You have to get it first, but you have to get it right”).

Bem, aos fatos. Alguns dos maiores sites de notícias do país, de acordo com o Comunique-se, repercutiram uma notícia dada pela Globonews sem apurar as informações. Não bastasse o fato de terem dado a notícia errada, estes veículos deixaram patente que “chupam” as informações da TV. Ah, que pena!

Veja trechos da matéria do Comunique-se:

“TV dá barriga e sites repercutem sem checar

O incêndio que atingiu na tarde da terça-feira (26/05) um prédio localizado em Moema, na zona sul de São Paulo, foi manchete, por alguns minutos, dos principais sites de notícia do País. O problema é que, na pressa para informar seus leitores, alguns veículos online se basearam em informação da Globonews de que um avião havia se chocado com o prédio e não tiveram o cuidado de checar.

“Avião atinge prédio em São Paulo” era uma das manchetes do Globo Online. Ao perceber o erro, minutos depois, o título mudou para "Incêndio atinge prédio em São Paulo". O UOL já foi mais categórico: “Avião da Pantanal cai na zona sul de São Paulo”.

A ombudsman do Portal, Tereza Rangel, não perdeu tempo. Lamentou que mal estreou a nova central de jornalismo e já caiu na tentação de copiar informação da TV.

“A ‘informação’ estava errada. Quando percebeu o erro, o UOL mudou o texto (sem alterar o horário), tirou o assunto da manchete e simplesmente adotou a fórmula "a informação inicial era de que um avião da Pantanal teria se chocado contra um prédio residencial, mas ela foi desmentida minutos depois pela Infraero, pelos Bombeiros e pela própria companhia". A ressalva não pode servir de desculpa para que não seja feita uma errata, até porque o título do texto afirmava, categoricamente, que o avião caíra. Se o UOL levou a ‘notícia’ à sua manchete é porque precipitou-se e, sem apuração própria, comprou a versão da TV, disseminando entre os internautas que houvera um acidente inexistente. A prática de cozinhar e assumir informações (certas ou erradas) da TV e rádio é comum em portais da Internet, mas não deveria ser adotada pelo UOL”.

Mario Vitor Santos, ombudsman do iG, também não deixou passar o erro. "O iG acaba de anunciar erradamente a queda de um avião em bairro residencial de São Paulo. A notícia ('Avião cai em bairro residencial de São Paulo') não se confirmou. (...) Minutos depois da notícia errada do desastre, mais grave ainda numa cidade já traumatizada por acidentes desse tipo nas imediações do aeroporto de Congonhas, a notícia foi retirada do ar. (...) O iG precipitou-se e errou. Deve ter confiado em quem não deveria. Atribuiu o erro à Infraero. Certamente não verificou a informação antes de levá-la ao ar. (...)".

A Central Globo de Comunicação informou em comunicado: “A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a Globo News, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões”.



Escrito por Liliana Negrello às 09h33
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Sujando os sapatos 2

 

O fato de ter estado no Iraque antes da guerra, deu a Jon Lee Anderson a oportunidade de conhecer pessoas chegadas ao ditador iraquiano. Uma delas, o médico pessoal de Saddam, Ali Bashir, deu a Lee algumas pistas do homem por trás da farda e do bigode preto:

 

“– Que você pensava realmente de Saddam? (...)

 – Para ser franco, acho que ele foi vítima de si mesmo e das pessoas que o cercavam. Ele é igual a qualquer outro ser humano, Tem algumas coisas boas e outras más. Penso que depende das circunstâncias do ambiente que fazem essas características se manifestarem mais de um jeito ou de outro. (...) Ele chegou ao poder ainda jovem... com apenas trinta e poucos anos. Era jovem demais para ter o poder absoluto de um país rico como o Iraque”. [A Queda de Bagdá, Jon Lee Anderson, ed. Objetiva, pg.291, tradução Alda Porto]

 

O livro também diferencia as percepções ocidentais e locais quanto à guerra. Evidentemente, a TV teve grande importância na sensação de vitória que varreu os EUA quando a estátua de Saddam caiu. Nem de perto a mesma sensação que acometeu os civis no Iraque.

 

“Não houve um único momento definido de catarse nacional que significasse uma ruptura com o passado. A derrubada da estátua de Saddam (...) simbolizara muita coisa para as pessoas no exterior, e talvez sobretudo para os americanos que testemunharam o momento nas telas de televisão, e que acreditaram que ele assinalava o fim da guerra no Iraque. (...) enquanto a maioria dos iraquianos, (...) eram obrigados a assistir, como espectadores passivos, ao saque e ao vandalismo em massa de sua capital.” [Idem, pg.307]

 

É de arrepiar as descrições do jornalista sobre a destruição de Bagdá logo após a entrada dos americanos, quando muitos iraquianos invadiram e pilharam palácios e museus da cidade.

 

Enfim, para saber mais, só topando saborear o livro!

 

Em tempo: Jon Lee Anderson é colaborador da revista The New Yorker.

 

(Quem tiver interesse pode acessar uma entrevista de Jon Lee no You Tube http://www.youtube.com/watch?v=jNRyW_4YEoA)



Escrito por Liliana Negrello às 18h09
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Sujando os sapatos

 

Em nossa época da infotainment, ler um livro como “A Queda de Bagdá” é reconfortante. Jon Lee Anderson, o autor, é um jornalista da velha escola, corajoso e brilhante, que levou ao pé da letra o que o também brilhante Humberto Werneck um dia chamou de “a arte de sujar os sapatos”.

 

Lee Anderson esteve no Iraque dois anos antes da ocupação americana. Conheceu o dia-a-dia do país na "era Saddam" e fez bons amigos iraquianos – que se tornaram fonte de informação e acolhida preciosas durante a Guerra. Em “A Queda de Bagdá”, o jornalista cobre o período de antes, durante e depois da derrubada da cidade pelas forças aliadas, num relato emocionante que foge com graça e elegância de qualquer explicação fácil ou de parcialidade mal-disfarçada.

 

Entre muitas coisas relevantes, a obra desvenda como Saddam controlava a mídia local e até a estrangeira (por meio de seu Ministério da Informação), confundindo os jornalistas e conclamando o povo à guerra. Uma das táticas era lembrar a falida tentativa de invasão britânica ao Iraque durante a Primeira Guerra Mundial – quando os ingleses tentaram expulsar os turcos otomanos do país.

 

Aliás, saber um pouco sobre as múltiplas invasões sofridas pelos iraquianos ao longo de sua história é essencial para entender a dificuldade dos EUA de pôr ordem no território. Nas palavras de um dos moradores locais entrevistados por Jon Lee:

 

“ – Nós aprendemos muitas lições sobre como nos defender de qualquer tipo de ocupação. Os americanos e britânicos não podem ocupar o Iraque. Ninguém pode. (...)”. [A Queda de Bagdá, Jon Lee Anderson, ed. Objetiva, pg.112, tradução Alda Porto]

 

Também é muito interessante o relato do jornalista sobre como os poucos colegas que ficaram no país durante o conflito tiveram que enfrentar os constantes perigos que vinham de todos os lados: partidários de Saddam, civis iraquianos e das próprias tropas aliadas. Muitos jornalistas sofreram seqüestros, violências e expulsões. Nesse último time, estava o documentarista independente Patrick Sullivan. Foi dele o bilhete que Jon Lee recebeu em plena ocupação americana:

 

“Jon: estou fora. (...) meu patrocinador no Ministério das Relações Exteriores foi obrigado a tomar meu visto. (...) Meus garotos, Ali e o irmão Jaffat [guias locais], foram mesmo destemidos, mas morriam de medo dos ianques para irem até a fronteira, por isso me largaram na estrada, e percorri a pé os últimos 5 quilômetros quase me cagando, passei por dois soldados iraquianos meio desconfiados, um par de carimbadores de papelada, de modos gentis, e depois o último quilômetro e meio da zona desmilitarizada até a Jordânia no velho expresso P2, chorando o tempo todo”. [Idem, pg.169]

 

Não bastassem os perigos que uma zona de guerra normalmente apresenta, havia ainda a chegada dos jihads, vindos de outros países árabes, prontos para se explodir em meio a militares e civis em nome de sua guerra santa.

 

E no olho de toda essa balbúrdia, havia também a inexperiência americana em relação aos costumes iraquianos. Muitos deslizes dos ianques (como revistar mulheres, por exemplo) aumentaram consideravelmente a ira dos civis contra os invasores.

 

(continua)



Escrito por Liliana Negrello às 22h02
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Folia dos milhões

 

No Brasil, país do real, país do futuro, país em franco desenvolvimento, já tem muita gente chegando ao seu primeiro milhão. Assistindo a isso, a classe média – ávida, iludida, voraz – compra as revistas de negócios, investe na bolsa, guarda os tostões e aguarda, desesperadamente, sua vez de ser milionária.

Como todo mundo sabe, é preciso tomar cuidado com o que se deseja... No Zimbábue, por exemplo, todo mundo já tem seu milhão. E a tendência cada vez mais forte é de que, em breve, muitas famílias tenham à disposição seu primeiro bilhão. 

 

“Vem aí a nota de 1 bilhão de dólares

KIGALI (RUANDA) – Leio que o governo do Zimbábue acaba de lançar a nota de 500 milhões de dólares (daquele país). Simplesmente inacreditável, mas parece que está havendo a hiperinflação da hiperinflação, ou seja, as coisas estão explodindo de preço a um ritmo cada vez mais explosivo. Deu para entender o que quero dizer?

 

Vejam só: alguns de vocês devem se lembrar de um post meu lá atrás, quando cheguei ao Zimbábue, em que eu relatava ter recebido meu primeiro bilhão de dólares. Isso foi há meros dois meses, quando isso valia US$ 40, e a nota mais alta era de 10 milhões de dólares zimbabuanos. Ela tinha validade até 30 de junho deste ano, mas parece que as autoridades monetárias foram otimistas demais. Virou pó antes.

 

Quando cheguei a Harare, em 23 de março, US$ 1 comprava 24 milhões de dólares do Zimbábue. Quando saí, 18 dias depois, a taxa já havia subido para US$ 1 para 40 milhões. Agora, pelo que andei lendo, está em US$ 1 para 250 milhões. O valor da moeda local ficou reduzido a um décimo em dois meses.

 

Aguardamos ansiosamente pelo dia histórico em que a nota de 1 bilhão de dólares zimbabuanos será lançada. Pelas minhas contas, será até o final do mês...”

 

A matéria acima é do indispensável blog do Fábio Zanini. http://penaafrica.folha.blog.uol.com.br/index.html



Escrito por Liliana Negrello às 09h50
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